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Muita gente ouve o termo e torce o nariz, mas, na maior parte das vezes, é por falta de clareza em relação ao real significado.

Sala de leitura de uma biblioteca antiga.

O que é evidência?

Nós, como humanos, buscamos compreender o mundo em que vivemos há milênios. Pensamos a respeito, criamos teorias… E a evidência consiste, justamente, em observações que falam a favor ou contra essas teorias.

Percebemos, por exemplo, que o fogo é quente porque o calor quando nos aproximamos de uma fogueira é evidência suficiente para tanto.

Ou seja, as evidências são as pistas a partir das quais nós, como humanidade, entendemos como o mundo funciona.

O problema é que nem tudo é tão simples quanto sentir o calor do fogo.

O que você comeu na penúltima terça-feira do mês passado?

Imagino que você, assim como eu, não faça a menor ideia. E isso é totalmente natural: nossa cabeça não é feita para lembrar de tudo.

Se você fizer mil testes, para não esquecer, vai ter que anotar os mil. E se você quiser que esses testes sejam mais fidedignos à realidade, vai ter que controlar algumas coisas também.

Imagine que você quer descobrir se os metais esquentam, por exemplo. Não há caminho melhor do que testar na prática: pegar várias amostras de metais diferentes, com uma mesma temperatura, e colocar num forno para ver se eles esquentam.

A Ciência faz justamente isso: testa as coisas na prática, de forma controlada, para entender como elas funcionam.

E o uso desse mesmo raciocínio dentro da Medicina é, justamente, a Medicina Baseada em Evidências.

Veja, antes disso, a medicina era feita meio que às escuras, por adivinhação, por “fazer sentido”. Até que figuras ilustres como Sir William Osler e Archie Cochrane começaram a questionar de forma mais estruturada essa base pouco sólida, em prol de, realmente, testar na prática para ver como funciona.

Até que, em 1992, David Sackett e Gordon Guyatt estruturaram e cunharam o termo “Medicina Baseada em Evidências” (MBE) [1].

Significa, simplesmente, usarmos a melhor evidência disponível no cuidado. Só isso. E foi uma mudança de paradigma imensa, que transcendeu a medicina e passou a afetar todas as áreas da saúde, fazendo com que hoje, na realidade, a gente prefira falar em Prática Baseada em Evidências, reconhecendo essa disseminação.

No fundo, é como cozinhar

Imagina que você vai preparar um prato a alguém muito querido. Você pega a melhor carne que encontra. Prepara em molho madeira, mal-passada, com champignon…

A coisa mais linda e mais gostosa, feita com o maior esmero possível. Ou seja, uma boa evidência e uma boa expertise clínica para usá-la.

A pior coisa, nesse cenário, seria descobrirmos que essa pessoa é vegetariana. Por isso, precisamos MUITO entender os valores e preferências da pessoa mais importante da relação médico-paciente, que é, pasmem, o paciente.

Tudo o que nós, profissionais da saúde, fazemos é para conseguir dar o melhor cuidado possível a quem confia nos nossos cuidados.

Sem entender essa pessoa, de nada adianta a melhor evidência, o profissional mais capacitado… se nada disso faz sentido para quem vai receber.

Medicina Baseada em Evidência não deveria existir

Se pensarmos a respeito, não deveria haver outra medicina que não a baseada em evidências. Se não, vamos nos basear no quê? Em crença, em sorte?

Não faz nenhum sentido. Não usar evidência é ter uma ferramenta pra fornecer o melhor cuidado possível e, mesmo assim, escolher não usá-la. É como ver alguém se afogando e escolher não ajudar.

E, curiosamente, apesar de não fazer sentido, é um tema MUITO mal visto durante a formação não só médica, mas da área da saúde de forma geral.

Por isso me dediquei e me dedico tanto ao estudo das habilidades e ferramentas necessárias para, de fato, proporcionar um cuidado baseado em evidências. E por isso me dedico tanto ao ensino disso, através do Bebendo da Fonte e de palestras, workshops e afins.

O que eu busco, no fundo, é uma perspectiva fundamentalmente utilitarista (à visão de Mill): o maior bem possível ao maior número possível de pessoas.

Por isso estamos aqui, e por isso seguimos aqui.

[1] Evidence-Based Medicine Working Group. Evidence-based medicine. A new approach to teaching the practice of medicine. JAMA. 1992 Nov 4;268(17):2420-5. doi: 10.1001/jama.1992.03490170092032. PMID: 1404801.

As informações deste artigo têm caráter educativo e não substituem uma consulta médica individualizada.

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